Se você nasceu em um lar “católico de IBGE”, você vai se identificar com esse texto. Provavelmente você nunca teve uma conversa sobre sexo com os seus pais, de forma que falar desse assunto era considerado algo pecaminoso, inimigo da santidade, tão ruim que te levaria ao inferno.
Em lares mais puritanos, a palavra “sexo” sequer poderia ser citada. O nosso desejo sexual era considerado algo ruim, que deveria ser reprimido e ocultado.
A Igreja era apresentada como um conjunto de regrinhas que deveriam ser seguidas sem maiores questionamentos. Bastava fazer o “check-list”:
- Ir à missa aos domingos: check!
- Uma confissão por ano: check!
- Receber a Eucaristia na Páscoa: check!
- Fazer caridade uma vez na vida: check!
- Repetir as orações mecanicamente: check!
Check! Check! Check! E por aí vai… Pronto! Cumpri com todos os meus deveres cristãos! Ufa!!
Por outro lado, também precisamos entender que os nossos pais não tiveram culpa, eles também não haviam sido formados na verdadeira Beleza e Esplendor e, como havíamos falado no texto anterior[1], ninguém pode dar aquilo que não tem.
Voltando ao nosso ponto, se o cristianismo dos nossos pais fosse uma dieta, seria chamada de dieta da inanição. Segundo a biologia, “inanição é o estado de uma célula ou de um organismo que carece de um elemento indispensável à sua vida”[2]. Traduzindo, todo aquele apego ao legalismo e ao moralismo seria um evangelho “desnutrido”.
Ocorre que ninguém consegue manter uma dieta tão radical por muito tempo, afinal nós somos criaturas carnais, porém feitas de corpo e alma. O nosso corpo tem desejo, dentro de cada um de nós há um coração que pulsa (e muito!), que arde pelo Infinito, de forma que “matar os nossos desejos é o suicídio da alma”[3].
Na prática, o que acontece é que o “discípulo” dessa dieta rapidamente se coloca diante de duas escolhas: ou encontro algo para comer ou eu vou MORREEER!!!! Ele acaba sendo atraído pelo “evangelho do fast food”: a promessa de gratificação imediata através da liberação do nosso desejo[4]. É o clássico: Os seus problemas acabaram!
Se você sente muita fome e come um hambúrguer do McDonald’s, a sensação de prazer é imediata. Acontece que essa sensação passa rapidamente e logo você se dá conta que está com fome novamente.
Por isso, os discípulos daquele evangelho fazem de tudo para buscar a felicidade e satisfação: sexo, sexo e mais sexo! Ocorre que nunca se viu uma sociedade tão infeliz, depressiva e ansiosa como atualmente. Será que não estão fazendo sexo o suficiente?
Assim, lamento te dizer (sendo bem sincera, não lamento) que mentiram para você sobre o visão cristã a respeito do sexo. Isso mesmo, você foi enganado! PA-RA-BÉNS?!
Esse evangelho fast food, apesar de atraente, não é exatamente um evangelho. Ele é uma fraude que nunca sacia. Na verdade, o que ele faz é reduzir e limitar o seu desejo. Tal como a dieta da inanição, ele leva à morte, mas não por desnutrição e sim por intoxicação alimentar.
Se você acredita que o desejo é inimigo da vida cristã, a sua visão sobre o Cristianismo está distorcida.
Contudo, como superar esse grau de miopia e recuperar a visão?
Pergunto de forma mais clara: O que nós fazemos com o desejo? Afinal, não podemos negar que ele existe.
A palavra-chave aqui não é a repressão (da dieta da inanição), nem o “libera, libera, libera geral” (do “fast food”). É necessário reordenar! Recuperar aquilo que foi distorcido e redirecionar para tudo o que é verdadeiro, bom e belo. No fim, Ele “viu que tudo era muito bom”[5], inclusive… o sexo.
“Aquilo pelo qual estamos famintos na “dieta da inanição” é a beleza da verdade. Quando o ensinamento cristão é apresentado sem beleza – de uma maneira seca, fria, mecânica e doutrinária – o coração se desliga e se fecha”. (…) “O sexo é uma realidade finita, e nós somos destinados a algo infinito (…). E quando nós direcionamos o nosso desejo pelo Infinito para algo finito, nós sempre ficamos na carência”[6].
Essa nossa busca incessante de validação e afirmação, de ser amado pelo que sou, com minhas qualidades, mas com meus defeitos também, com meus dons e talentos, na alegria e na tristeza, naquele dia comum ou naquela noite de puro agito e diversão, “é o desejo dentro de nós que “procura Deus”[7]. É como está escrito: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”[8].
Um abraço!
Magali
Missionária da Missão Maria de Nazaré
[1] https://www.mariadenazare.com/todos-querem-ouvir-amor-i-love-you/
[2] Definições do dicionário Oxford Languages ·
[3] WEST, Christopher. Enchei estes corações: Deus, sexo e o anseio universal. São Paulo: Cultor de Livros, 2018.
[4] Idem.
[5] Gên. 1, 31.
[6] Idem. Negritos acrescidos.
[7] Bento XVI, Deus Caritas Est, 7.
[8] Santo Agostinho.







