O poema “A Mariposa entre o Fogo e a Lua” é uma meditação simbólica sobre o drama interior do homem entre duas atrações: o brilho imediato do desejo e a luz paciente que conduz ao verdadeiro bem. Por meio da imagem da mariposa, atraída pela chama e ao mesmo tempo chamada pela serenidade da lua, o texto explora a luta entre o impulso do instante e a sabedoria da espera, entre o fascínio do orgulho e a memória do Jardim perdido. Com imagens intensas e contemplativas, o poema convida o leitor a percorrer esse caminho interior de tentação, nostalgia e esperança. Leia o poema completo a seguir.
A MARIPOSA ENTRE O FOGO E A LUA
Cansado de correr,
não por trilhas de terra,
mas por escadas de brasa
que descem ao interior do mundo.
O inferno não é um abismo:
é um pomar de chamas
onde frutos de orgulho
amadurecem na noite,
onde lâmpadas de vaidade
ardem como frutos proibidos
pendendo da Árvore do Desejo.
E eu, mariposa do pensamento,
bebo com os olhos
o vinho luminoso dessas chamas.
Ó fogo magnífico e aterrador,
tirano de ouro instantâneo!
Teu calor é uma promessa rápida,
teu clarão um evangelho de mentiras
para as criaturas fatigadas da santa espera.
Que pode a lua contra ti?
A lua não seduz,
ela vigia paciente o deserto da noite.
Não com gritos de luz,
mas com o silêncio de um jardim
plantado no céu.
Ela não queima as asas:
ela pede que aprendam
a voar.
Mas eu —
filho do instante,
irmão da febre,
discípulo do agora —
abandono sua luz paciente.
Pois a lua é como uma rosa celeste:
não se entrega ao primeiro olhar.
É preciso cultivá-la
como se cultiva uma flor no deserto,
regar suas raízes com vigílias,
e suportar o frio das estrelas
como quem aceita os espinhos.
Ó rosa da noite,
suspensa no deserto do céu!
Quantas promessas escondes
em teus véus de prata?
Teu perfume não consola,
ele tortura docemente
o coração que lembra.
Porque dentro dele
vive ainda a memória do Jardim.
Um sopro antigo
que diz:
Houve um tempo
em que o mundo era um pomar de luz,
e o homem caminhava entre as árvores
sem medo do fogo.
Mas agora a rosa cresce no deserto
e cada pétala sua
é uma promessa velada do Éden.
E eu, mariposa cansada,
pairo entre duas claridades:
a chama imediata
que devora,
e a lua distante
que exige paciência.
Talvez minhas asas
não suportem a longa dança da noite.
Talvez eu caia,
como tantos antes de mim,
no altar ardente do instante
onde as mariposas oferecem
suas asas ao fogo.
Mas ainda assim contemplo a rosa:
tão necessária ao toque dos meus dedos,
tão profunda em seu coração secreto,
pois no coração da rosa
arde a mesma Chama
que acendeu a lua
na primeira noite do mundo.








