Na vida espiritual, todo cristão é chamado a avançar no caminho da santidade. A lei natural do ser humano é que ele sempre cresça e se desenvolva; logo, a vida sobrenatural também exige um progresso, que está associado à nossa abertura à graça de Deus e ao avanço para uma relação mais profunda com o Amado, através da vida de oração, da vida sacramental e da prática das virtudes.
As virtudes cardeais são também chamadas de virtudes humanas e, com sua prática, todo ser humano, seja batizado ou não, com o auxílio da graça suficiente, ordena suas ações para o bem (CIC 1804). Já as virtudes teologais são a essência da vida cristã. São concedidas a nós como um dom de Deus no batismo e nos direcionam a Ele como nossa origem, motivo e objeto (CIC 1812).
A virtude da fé é crer em Deus e crer em toda a sua revelação, conservada pela Santa Igreja (CIC 1814). Entretanto, o Pe. Antônio Royo Marín distingue a posse da fé e o espírito da fé, ou seja, viver toda a nossa vida à luz da fé. Neste artigo, vamos compreender o dom da fé.
Primeiro, a fé é um dom de Deus, infundida na alma no batismo para capacitar a nossa inteligência a compreender melhor o que é Dele. Com nossa própria inteligência, não conseguimos compreender as coisas de Deus. As faculdades humanas podem nos fazer alcançar uma compreensão limitada, mas, sem a fé, tudo permanece obscuro. Antônio Marín compara essa realidade com as ondas de rádio: você consegue ouvir, mas não pode ver.
Vou além nesta analogia: quem já acompanhou jogos de futebol pelo rádio sabe a diferença em comparação com a televisão. O narrador de rádio precisa transmitir não apenas os lances, mas também passar a emoção da partida, uma vez que os ouvintes não podem ver o que está acontecendo. Já quem assiste pela televisão tem uma percepção maior do jogo e pode viver uma boa experiência, independentemente da qualidade do narrador.
Na vida sobrenatural, a fé nos concede os olhos de que precisamos para viver essa realidade. Não se trata da plena visão de Deus, que é alcançada, na eternidade, por aqueles que progridem no caminho da santidade e perseveram até o fim. Estes, continuando com a analogia, assistem ao jogo diretamente do estádio, no melhor lugar e com acesso amplo e irrestrito aos bastidores.
Nossa inteligência busca a verdade, e o objeto da fé ainda parece obscuro para nós. Por meio da vontade, somos direcionados a uma luz que nos chama: a luz da autoridade de Deus, que nos move a dizer “sim” ao que nos foi revelado por Ele, com firme convicção de que estamos em direção ao nosso fim último. Assim, ter fé é submeter nossa inteligência humana à sabedoria de Deus, reconhecer Sua bondade infinita e nos comprometer em um ato de confiança total no Senhor (Pe. Antônio Royo Marín).
Pela virtude da fé, somos incorporados a Cristo, que nos incorpora à sua Igreja. Pela fé, tornamo-nos um só corpo, embora sejamos muitos membros. Passamos a enxergar o mundo com os olhos de Deus e somos direcionados ao que é bom, belo e verdadeiro, de modo natural, sem legalismos ou moralismos, uma vez que Deus é a bondade, a beleza e a verdade supremas. Quem é chamado a viver um banquete completo não irá se empanturrar com fast-foods.
A fé nos fortalece contra as adversidades, de modo a glorificar a Deus mesmo diante das mais difíceis tribulações. Pela fé, sabemos que o caminho para a ressurreição é a cruz e que, mesmo nas situações mais difíceis, Deus pode fazer brotar a semente de uma nova vida. O cristão reconhece que sua meta está no Calvário. A fé é o fundamento de nossa esperança de “assistir ao jogo diretamente do estádio”, face a face, onde a fé não existirá mais, mas a plena visão.
Entretanto, não basta ter fé: é necessária sua prática. Jesus já alertava: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Sem a virtude da caridade, a única virtude teologal que permanece na eternidade, nada adiantaria a fé. Quem vive uma fé operante permite-se ser iluminado por Deus, atrai os que estão ao seu redor e se torna testemunho de que Cristo vive.
Nos tempos atuais, o mais necessário e urgente são aqueles que testemunham sua fé não apenas com pregações — embora sejam importantes —, mas com a própria vida. Um dos maiores males que afligem a Igreja não são os satanistas, os hereges ou seus perseguidores, mas os próprios cristãos que dão testemunho contrário: pregam a fé, mas vivem como se não a tivessem.
O cristão ambicioso por dinheiro e poder, que idolatra o mundo material e coloca nele o seu fim último; o cristão que pratica a injustiça para se beneficiar; o cristão que recusa ajuda a um irmão pobre. A fé sem obras esfria o nosso ardor missionário de levar Cristo ao próximo e nos coloca em grande risco de perdição.
Aos que possuem a fé, louvor e ação de graças a Deus por este dom grandioso e precioso, que deve ser cuidado, protegido e multiplicado por meio da oração e do estudo (lembra da parábola dos talentos?). Não basta ter fé: é necessário colocá-la em prática, ser um membro vivo e operante da Igreja.
Ao enxergarmos o precioso dom que nos foi concedido, temos o dever de colocar essa luz à vista. Nossa vida deve refletir a nossa fé, de modo a contagiar aqueles que estão ao nosso redor, para que também encontrem a salvação.
Felipe Mendes
Missionário da Missão Maria de Nazaré
REFERÊNCIAS
-MARÍN, Antônio Royo. A espiritualidade dos leigos. Tradução de Antônio Carlos Santini. 1 ed. Campinas-SP: Ecclesiae, 2023.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.








