Todo cristão batizado possui a virtude infusa da fé. Entretanto, para alcançar a perfeição cristã a qual somos chamados (LG, 40), é necessário se esforçar para viver o cotidiano guiado pela luz da fé e não apenas pela razão natural e humana. Muitas passagens da sagrada escritura recordam que ‘‘o justo vive pela fé’’, ou seja, a fé forma todo o seu pensamento e conduta. E para diferenciar as almas, o Pe.Antônio Royo Marín as diferencia de acordo com os princípios que fundamentam a regência de suas vidas.
Primeiro, é a alma dominada pelo espírito humano, que é diferenciada pela vida sensual e a vida natural. A primeira, podemos chama-la de homem animal, absolutamente entregue aos apetites sensíveis e a busca única pelo prazer, que acredita que basta uma vida confortável e ter todos os caprichos atendidos para alcançar a felicidade. Sabemos que isto funciona para o animal: uma vaca precisa só de um pasto cheio de grama, um cantil com água e um touro para garantir a sobrevivência de si e da espécie. Já um ser humano pode ter todo o dinheiro do mundo, a melhor casa, a melhor comida e bebida, a melhor companhia, os melhores filhos…e não se sentirá completo. Eis o fracasso do homem animal.
Já o homem natural, que vive a sua vida natural e busca sua felicidade através da razão e da natureza humana. Na prática, é a pessoa que busca ser um bom cidadão, que pode até viver virtudes meramente humanas (justiça, temperança, fortaleza e prudência), mas sua visão está limitada as coisas terrenas. Sua relação com Deus é meramente usual: para pedir um benefício terrestre. Não enxerga a santidade como algo palpável e plausível. Não tem vida sobrenatural
Por fim, o homem de fé, vive por razões sobrenaturais. Suas ações são voltadas para Deus e tudo o que faz é pela finalidade última de sua vida que é a eternidade com Deus. A fé não é apenas um anexo da vida, não está presente só na missa de domingo, mas em toda a vida: na vida familiar, no trabalho, nos estudos, nas relações pessoais, tudo é vivido na fé.
A fé é o fundamento da perfeição e da santidade e o Concílio Vaticano II recorda que:
É necessário que os leigos avancem por este caminho de santidade com espírito decidido e alegre, esforçando-se por superar as dificuldades com prudente paciência. Nem as preocupações familiares, nem os demais assuntos temporais devem estar alheios a esta orientação espiritual da vida, conforme a exortação do Apóstolo: ‘Tudo quanto fazeis, por palavra ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai’ (Cl 3,17).
Para entendermos melhor o espírito da fé, vamos a uma analogia: como funciona a nossa visão? Para enxergarmos, são necessários os órgãos da visão, os olhos, em bom estado, com todas as suas células sensitivas em pleno funcionamento, permitindo a entrada da luz e a formação da imagem com formas e cores. Mas nada adiantaria ter bons olhos, se não houver LUZ. Na escuridão, ninguém enxerga. Com a entrada da luz em nosso olhos, nosso cérebro irá processar a imagem recebida e baseado em nossos conhecimentos anteriores, seremos afetados pela imagem vista: se em nossa frente está uma pessoa querida, iremos reagir bem. Se está em nossa frente uma pessoa desconhecida, porém que não apresenta ameaça, ficaremos indiferentes. Se está em nossa frente uma possível ameaça, reagiremos com medo ou com desejo de fuga ou luta. Mas nossa reação depende: do que enxergamos e como enxergarmos. Se o local estiver mal iluminado, posso interpretar mal o que vejo: chamar de ameaça um amigo e chamar de amigo uma ameaça. Também é importante formar bem nosso pensamento para não interpretar de modo errado o que vejo em minha frente e já considerar uma ameaça algo que me é desconhecido ou então fazer um juízo temerário de algo que conheço pouco. E por fim, baseado em como essa imagem chega a mim e me afeta, eu irei agir com uma determinada intenção.
Viver da fé funciona de modo parecido com a analogia acima, afinal:
- Ela coloca a verdade em nossos pensamentos: é uma lâmpada que ilumina nosso caminho e nos faz enxergar de modo mais claro as coisas. Embora a plena visão seja apenas no céu, quem vive pela fé anda nesta vida com uma lanterna, enquanto quem não a tem anda no escuro e quem a tem mas não vive pela fé, anda com uma pequena vela. Vivendo pela fé que o cristão irá se orientar e escolher o que convém para a sua salvação, pois enxergará o que realmente é bem e o que não é.
- Ela santifica nossos afetos: uma vez que nossa inteligência recebe a luz da fé, ela irá guiar nossas ações, nossos afetos e agiremos com o amor que Deus nos ama. Amaremos o que Ele ama e odiaremos o que Ele odeia. A fé purifica nosso coração e nossas ações. Afasta o apego das criaturas, ao enxergar nela sua efemeridade e identifica em Deus o bem supremo.
- Torna meritória todas as nossas ações: Além de purificar nossas ações, a fé purifica nossas intenções e as tornam meritórias. Suas obras são firmes e resistentes e passam pelo fogo da justiça divina, que fará com que as boas obras sejam iluminadas, enquanto as obras feitas por vaidade sejam queimadas e destruídas.
Ao dizermos que o ‘justo vive pela fé’, deixa-se claro que em toda a sua vida é iluminada por este espírito que nos conduz a verdadeira felicidade no céu. Torna o caminho para a eternidade mais claro e visível e a partir deste instante, cada detalhe de sua vida, cada alegria e sofrimento, cada honra e menosprezo, cada conquista e perda, é vista e direcionada para o encontro definitivo com o Deus Amado.
Felipe Mendes
Missionário da Missão Maria de Nazaré
REFERÊNCIAS
-CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium. (1964). Petrópolis-RJ: Vozes, 1982
-MARÍN, Antônio Royo. A espiritualidade dos leigos. Tradução de Antônio Carlos Santini. 1 ed. Campinas-SP: Ecclesiae, 2023.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.








