A passagem da Samaritana, no capítulo 4 do Evangelho de João, é essencial para entendermos como Jesus ensinava: Ele chama a viver uma vida interior, superior ao que nos acostumamos. Jesus, o próprio Deus, rebaixa-se à condição humana para elevar a humanidade para mais perto Dele.
A samaritana pertencia a um grupo que não se dava bem com os judeus e passou por uma difícil história. Estava no sexto relacionamento, insistia na procura de um amor que realmente a preenchesse. Ao ir buscar água, encontra Jesus no poço, um judeu, que lhe pede água. Ela está diante do Deus sedento, não de água, pois Ele é o criador desta substância, mas sedento de Amor. O Deus supremo coloca-se em uma posição de necessidade e nos pede para ser saciado.
Isto é importante frisar, pois o Senhor poderia ter sido direto ao ponto: “Você está vivendo em situação de pecado. Estou extremamente decepcionado contigo. Desperdiçou toda sua vida atrás de amores passageiros. Largou seu marido para trás para viver com outros.” Jesus poderia ter sido firme, como era com os fariseus. Mas o sábio mestre sabia que não deveria ser assim. O mestre chega pedindo um favor, em uma posição inferior, dependente, confiando-lhe uma tarefa, lembrando à discípula que ela tem forças para realizar esta tarefa e que confia plenamente nela para cumpri-la.
A samaritana se estranha, pois um judeu pedir um favor a ela. Jesus responde de uma forma esperançosa: “Se conhecesses o dom de Deus, tu me pedirias água, e eu lhe daria a água viva.” A samaritana retruca: “O poço é fundo e nem tens com o que pegar a água. Como me darás a água viva?” Jesus responde: “Se beber desta água do poço, terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu darei jamais terá sede, mas se tornará fonte de água que jorra para a vida eterna.” Jesus se aproxima da realidade da samaritana para chamá-la a algo ainda maior. Ela, que buscava saciar-se nas coisas passageiras e sempre ficava com sede, é chamada por Cristo a nunca mais ter sede, pois estava diante da fonte de água viva. Jesus se aproxima dela e chama-a à sua realidade com esperança, sem julgamentos, de modo que ela clama: “Senhor, dai-me desta água para que eu não tenha mais sede.”
O próximo passo de Jesus é ajudá-la a vencer o pecado. Não aponta o dedo, mas é sutil: “Vai chamar teu marido.” Ela responde: “Não tenho marido.” Jesus poderia dizer: “Estás mentindo.” Mas o Senhor interpreta sua resposta em um bom sentido: “Disseste bem. Tiveste cinco maridos, e o que está agora contigo não é teu marido. Nisto falaste a verdade.” Jesus não a chama apenas para sair do pecado, mas a chama a uma missão: ser testemunha Daquele que é a fonte da água viva e a razão da sua esperança, o único capaz de saciá-la. E assim ela o faz: deixa o cântaro no poço e volta para seu povo com profunda alegria.
Eis a forma como Jesus ensina aos seus: pelo amor. Não rebaixa seus discípulos nem aponta o dedo para seus erros. Vai até eles, entra em seu mundo e os chama a viver um apostolado; são chamados a colaborar com o mestre, e este mesmo discípulo chama outros a segui-lo. Tal forma foi muito bem explicada por São João Bosco, no seu método preventivo. Longe de diminuir seu aluno, o mestre é chamado a exaltar a dignidade de seu discípulo, chamado a viver uma vida superior, de modo que ele verá seu pecado como empecilho para alcançar voos ainda maiores. Jamais nos esqueçamos de nossa vocação e que somos chamados a lembrar aos menores desta realidade: somos chamados a viver o amor como apostolado.
Felipe Mendes
Missionário da Missão Maria de Nazaré








