Na primeira parte deste texto, vimos como o utilitarismo reduz as relações humanas a um cálculo de prazer e utilidade. Agora precisamos aprofundar nossa reflexão, porque existe um segundo significado da palavra “usar” que toca de modo ainda mais íntimo o coração das relações humanas, especialmente no campo da sexualidade.
Quando dizemos que alguém “usa” outra pessoa, não estamos falando apenas de tratá-la como instrumento para um fim externo. Existe um sentido mais sutil e perigoso: usar significa aqui “vivenciar o prazer”, tornar a outra pessoa uma fonte de sensações agradáveis para mim, um meio para obter experiências emocionais e afetivas que me satisfaçam. Este segundo significado é particularmente relevante no relacionamento entre mulher e homem, no contexto da sexualidade. Aqui, o perigo não está apenas em usar o outro como ferramenta, mas em reduzi-lo a um objeto de prazer, alguém cuja existência se justifica pela intensidade das sensações que pode me proporcionar.
Vivemos em uma época marcada por aquilo que podemos chamar de “utilitarismo hedonista”, uma mentalidade que coloca o prazer imediato como critério supremo de decisão. A pornografia transformou a intimidade em produto de consumo. Pessoas reais são reduzidas a imagens que existem apenas para estimular sensações. Não há encontro, não há reconhecimento da dignidade, não há responsabilidade. Apenas o cálculo frio: “Isso me dá prazer? Então uso.”
As redes sociais criaram uma cultura da aparência e da superficialidade. Os relacionamentos tornam-se uma sucessão de experiências emocionais passageiras, onde o outro vale enquanto me proporciona emoções intensas. Quando a química acaba, descarta-se a pessoa como se descarta um produto que não serve mais.
A mentalidade contraceptiva separou sexualidade de compromisso, prazer de responsabilidade. O ato sexual, que na visão cristã é expressão máxima de doação total e abertura à vida, foi reduzido a uma troca de sensações, esvaziado de seu significado profundo. A ideologia do “amor livre” prometeu liberdade, mas gerou solidão. Quando o prazer se torna o único critério, as pessoas se tornam intercambiáveis. O vazio existencial aumenta, porque o coração humano foi feito para amar e ser amado, não para “usar” e ser “usado”.
Wojtyla nos alerta: quando o prazer é buscado por si mesmo, desvinculado do amor autêntico à pessoa, cai-se em uma forma sutil, mas profunda, de egoísmo. A pessoa do outro se torna apenas ocasião para minha experiência de prazer. Mesmo que haja consentimento mútuo, mesmo que ambos busquem prazer um no outro, se este é o fim último, então ambos estão se “usando” reciprocamente.
Este é o paradoxo do utilitarismo aplicado à sexualidade: cada um busca o próprio prazer servindo-se do prazer do outro, mas ninguém está realmente amando. É uma estrutura que parece equilibrada na superfície — “eu te dou prazer, você me dá prazer” —, mas que no fundo é profundamente alienante, porque a pessoa, tanto a outra quanto eu mesmo, se rebaixa ao nível de meio, de instrumento.
A Teologia do Corpo, desenvolvida por São João Paulo II, oferece um caminho de saída desta prisão utilitarista. No centro está a norma personalista: a pessoa é um bem que, pelo seu valor intrínseco, não pode ser tratada como objeto de uso nem subordinada a qualquer outro fim. A pessoa só pode ser amada.
Mas o que significa concretamente “amar” neste contexto?
Amar alguém não é buscar o que posso obter desta pessoa, mas querer o bem dela por ela mesma. É reconhecer que ela tem dignidade absoluta, que vale infinitamente mais do que qualquer prazer ou benefício que possa me proporcionar. Nas palavras do Evangelho, é seguir o mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, ou seja, desejando para o outro o mesmo bem integral que desejo para mim.
A norma personalista não nega o prazer — isso seria uma forma de puritanismo, que é também uma deformação. O que a norma personalista afirma é que o prazer deve estar subordinado ao amor verdadeiro, integrado na doação sincera de si mesmo.
A Teologia do Corpo nos ensina que o corpo não é uma “coisa” que a pessoa possui, mas dimensão constitutiva da pessoa humana. Somos corpo-alma, unidade substancial. Por isso, o que fazemos com nosso corpo expressa quem somos como pessoa.
A palavra “responsabilidade” pode parecer pesada, quase opressora em nossa cultura que exalta a espontaneidade e a leveza. Mas, na verdade, a responsabilidade é a outra face do amor. Se amo alguém de verdade, naturalmente me preocupo com as consequências de minhas ações sobre essa pessoa. Não posso amar e ser indiferente ao que acontecerá com quem amo.
A responsabilidade — a capacidade de “responder” pelo outro, de cuidar dele — é prova de amor autêntico. No contexto sexual, isto significa não expor o outro a riscos por causa do meu desejo de prazer, não despertar nele sentimentos e expectativas que não posso honrar, não o comprometer em uma união que não estou disposto a assumir de modo definitivo.
Para você que lê estas palavras, qualquer que seja sua situação atual — casado ou solteiro, vivendo em pureza ou lutando contra hábitos arraigados, cheio de esperança ou marcado por feridas do passado —, há sempre a possibilidade de recomeçar. A misericórdia de Deus é maior que todos os nossos pecados. Cada dia é uma oportunidade de escolher novamente o amor verdadeiro, de dizer “não” à mentalidade utilitarista e “sim” à vocação sublime de amar como Cristo nos amou.
Que a Virgem Maria, modelo de pureza e de doação total, interceda por todos nós. Nossa sexualidade não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser vivido em santidade, um caminho para o Céu através da doação sincera de si mesmo.
O remédio para o utilitarismo é o amor! Não o amor como sentimento passageiro ou busca de prazer, mas o amor como decisão livre de querer o bem do outro, de respeitar sua dignidade, de doar-se totalmente, corpo e alma, na fidelidade do matrimônio ou na dedicação generosa de outras vocações. Este amor, vivido com a graça de Deus, transforma o mundo. Transforma primeiro a nós mesmos, depois nossas famílias, nossas comunidades, toda a sociedade. É a única revolução verdadeiramente radical: a revolução do Evangelho, que não usa ninguém, mas ama a todos.
Amém.
Magali
Missionária da Missão Maria de Nazaré







