Em 2020, no Brasil, foi lançado um livro com a ousada proposta de revelar a “verdade sobre a maternidade” baseando-se em relatos de “mulheres e mães reais” que usam nas redes sociais mais populares do momento a #maternidadereal, na tentativa de refletir sobre a “maternidade compulsória e idealizada, imposta por uma sociedade regida pelo machismo e pelo sexismo, na qual, culturalmente, a mulher tem como principais funções a procriação e os cuidados com a família” nas palavras da autora.
A proposta de revelar ao mundo que a maternidade não é nada como “nas novelas”, isto é, perfeita não é uma empreitada nova, porém nesses últimos anos, com a exponencial possibilidade de exposição pessoal na internet, cresceu-se assustadoramente o desconhecimento sobre o que é ser mãe na mesma proporção que se diminuiu o desejo de sê-la em toda a sua extensão lançando mão a ideia de que existe uma maternidade “real” e outra “irreal”, na qual a primeira mostra que as dores de ser mãe superam (e muito) as alegrias tornando ser possível que uma mãe não goste de ser mãe.
O que acontece é que o ser humano ao cair no pecado original passa a conhecer a dor, consequência do seu afastamento de Deus, logo passa ele também a fugir da dor e de tudo o mais que possa causar-lhe qualquer desconforto, tendo em vista que aceitar sentir dor é no mínimo insensato. Portanto, ao encarar a realidade da maternidade como um fardo, uma condição que causa entre outras coisas a dor, e dor física, inclusive, obviamente há de se afirmar que “ser mãe é algo ruim e que ninguém em sã consciência desejará ser uma”, certo?
Errado.
No dia 20 de maio, celebramos a memória da Virgem Maria, Mãe da Igreja – na primeira segunda-feira após Pentecostes – solenidade instituída pelo Papa Francisco em 2018, mas querida desde os primeiros séculos da Igreja (Santo Agostinho, São Leão Magno, ano 325 d.C.) por sempre entender Maria como Mãe de Deus (e nossa, por consequência).
Em maio de 2023, nosso pontífice nos convidou a pensar em Maria no momento de Pentecostes, ela que a pouco havia perdido seu filho, ali estava quando veio o Espírito Santo sobre os apóstolos, protagonizando e também testemunhando o Amor de Deus que cumpre Sua promessa de permanência conosco na pessoa do Paráclito.
“O Espírito Santo é a alma da Igreja e Maria sua esposa. A Igreja é o corpo místico de Cristo, Maria é a Mãe de Jesus que ele mesmo confia no alto da Cruz, a João, confiando ao mesmo tempo o apóstolo a Maria.”
A maternidade de Maria e a maternidade da Igreja são entendidas a luz do que Papa Francisco ensinou na sua primeira celebração da memória da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, de acordo com a homilia do Pe. Paulo Ricardo, de 2023:
“Todas as palavras de Nossa Senhora são palavras de mãe da Anunciação até o fim, ela é mãe […] sem a mulher a Igreja não vai em frente, porque ela é mulher, e essa atitude da mulher vem de Maria, porque Jesus assim o desejou”.
Prosseguiu narrando o sacerdote que “naquela ocasião, Francisco indicou a ternura como a atitude materna deve distinguir a Igreja, acrescentando: “também uma alma, uma pessoa que vive essa pertença à Igreja, sabendo que também é mãe, deve seguir o mesmo caminho: uma pessoa mansa, humilde, terna, sorridente, cheia de amor”.
Daí temos duas realidades sobre o mesmo ato: ser mãe como o mundo diz que é e ser mãe como Maria foi para Jesus e é para nós – aqui sim cabe distinguir qual é a maternidade real e a irreal – revelando, sem sombra de dúvidas, que o dom de Deus que deu à mulher a graça de ser coparticipante na criação de uma nova vida tem em Maria o exemplo fiel e verdadeiro de maternidade no qual devemos crer, pois assemelha-se ao que o Criador também realiza em nós, mulheres.
Não há por que negar que a dor é parte da existência do ser humano, mas é necessário enfatizar que fugir dessa realidade é escolher fechar os olhos para a grandeza incomensurável que é gerar e formar uma vida nova, pois reduz o ser mãe aos desafios inerentes dessa vocação singular. É óbvio que não se deve diminuir os sofrimentos que perpassam essa trajetória e muito menos incentivar uma maternidade “heroica”, contudo distorcer a beleza que há em ser mãe pelas dificuldades que existem no caminho é mentir, é tornar o real em irreal, porque não se trata de provar que é fácil, divertido, natural, instantâneo e indolor, mas de mascarar a verdade exaltando que é “difícil, chato, penoso, solitário”.
Colocar na balança prós e contras é muito fácil quando é a mão do ser humano que distribui as medidas e julga o resultado, mas a verdade é só uma, porque Deus não muda de ideia – em toda a sua criação “Ele viu que era bom” e o que é bom, é. Simples assim. E em matéria de maternidade “ser bom” não cabe penduricalhos como “fácil” ou “difícil”, mas cabe o reflexo de Maria, mãe de Jesus, que muito sofreu em sua vocação como mãe do Salvador, mas que seu amor e confiança em Deus alcançaram-lhe de tal forma que a ela foi confiada, pelo seu próprio filho, a humanidade, que O crucificou, para dela cuidar assim como ela cuidou do Cristo, pois esse sim é o exemplo que as mães precisam ter diante dos olhos quando se olharem no espelho – o amor de mãe tudo pode suportar se em tudo a Deus se confiar.
Hoje, ore dessa forma, mãe:
“Maria, mãe da Igreja, ajuda-nos a entregar-nos plenamente a Jesus, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e de cruz, quando nossa fé é chamada a amadurecer”. (Papa Francisco)
Tanyele Rodrigues
Missionária da Comunidade Católica Missão Maria de Nazaré
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Bibliografia:
https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-10/maria-mae-da-igreja-padre-gerson-schmidt.html
https://padrepauloricardo.org/episodios/por-que-maria-e-mae-da-igreja







