Uma vez que compreendemos, no artigo anterior, o sentido da teologia do corpo e seus impactos e importância no mundo atual, podemos nos perguntar: qual é a sua intuição básica, ou seja, o pilar – pilar bíblico – no qual São João Paulo II se apoiou para construir o edifício da teologia do corpo?
Tais pilares estão contidos nas primeiras e nas últimas páginas da Sagrada Escritura: Gn 2, 18-23 e Ap 19. A Bíblia começa com um casamento e termina, igualmente, com outro matrimônio. Em Gn 2, 18-23, Deus nos mostra o “casamento” de Adão e Eva, antes do pecado: “Então o Senhor Deus fez vir sobre o homem um profundo sono, e ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Depois, da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher a apresentou-a ao homem. E o homem exclamou: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘humana’ porque do homem foi tirada.” (Gn 2, 21-23).
Já em Ap 19 vemos outro casamento, não mais entre um homem e uma mulher, mas de Deus com o homem: “Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada. Foi-lhe dado revestir-se de linho puríssimo e resplandecente”. (Pois o linho são as boas obras dos santos.) Ele me diz, então: “Escreve: Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro”. Disse-me ainda: “Estas são palavras autênticas de Deus” (Ap 19, 7-9)
Aquele casamento humano de Gênesis 2 é belo, é a primeira canção de amor de um homem para uma mulher, e tudo isso antes do pecado, antes da queda. Ou seja, Adão e Eva viviam um amor mútuo puro, casto e profundamente sadio e verdadeiro. Mas esse casamento aponta para um outro casamento do final da Bíblia, o de Apocalipse 19.
Na verdade, dentre todas as comparações que Deus usa para nos falar da sua relação com o homem na Sagrada Escritura, a que mais aparece não é a da ovelha e do pastor, pai e filho, mestre e servo, vinha e ramo, dentre outras, mas é a do esposo e da esposa, é a de um casamento. (cf. Familiaris Consortio, 12)
Ao longo de toda a Escritura, Deus usa essa comparação para dizer ao homem que ele é chamado a viver consigo um matrimônio eterno no Céu, como apontado em Ap 19. Portanto, a realidade do matrimônio nesta vida é um sinal, um sacramento, da união que somos chamados a viver com Deus no Céu. É sacramento também da relação de Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 21-26; Familiaris Consortio, 13)
E preste atenção: não se trata de uma união sexuada, Deus não tem sexo e a mínima ideia sobre isso seria uma aberração, mas é uma união de vontades, de corações, de amor, da alma amada com o Deus que a ama, assim como uma relação e união de amor entre cônjuges.
Portanto, ao olhar para sua esposa, para seu esposo, para o seu casamento, homem e mulher são chamados a ver o próprio Cristo, a prefiguração do casamento eterno que é chamado viver. Uma vez que vivemos em um mundo pansexualizado e utilitarista, a moda é buscar o prazer pelo prazer e a pessoa ser o fim último, ou nas palavras da Santa Sé, é “egoísmo” e “desordem moral” (Orientações Educativas Sobre o Amor Humano, 5).
Mas Deus nos chama a viver o matrimônio como ponte de amor para Ele, amar por causa Dele e tendo a Ele como finalidade. Viver o namoro ou noivado, preparando-se para, um dia, viver esse sinal – esse sacramento – do Eterno Amor.
Eis a verdade contra todo o erro.
Emanuel de Jesus
Missionário da Comunidade Católica Missão Maria de Nazaré
Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, de 22 nov. 1981 (AAS 74 [1982] 81-191).
Congregação para a Educação Católica, Orientações Educativas sobre o Amor Humano, de 1 nov. 1983.







