O Papa inicia este ciclo de catequeses com a Constituição Dogmática Dei Verbum, promulgada em 18 de novembro de 1965, que trata da revelação divina. O documento parte da passagem: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Deus nunca abandonou a sua criação; desde o princípio, tudo foi direcionado para a redenção do ser humano em Jesus Cristo, a plenitude da relação de Deus com o homem: não como servos, obrigados a obedecer, mas como amigos, que o amam de forma livre, em resposta de fé.
O Papa Leão usa uma frase de Santo Agostinho que reforça a perspectiva da graça como o meio que nos torna amigos de Deus: Amicitia aut pares invenit, aut facit — “A amizade encontra os iguais ou os torna iguais”. Ou seja, pela graça de Deus tornamo-nos semelhantes a Ele por meio de seu Filho, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
No início da história, surge um momento de distância entre Deus e sua criatura por causa do pecado. A redenção de Jesus abre o caminho não apenas para nos livrar da condenação eterna, mas também para nos fazer participar de sua alegria eterna no céu, isto é, de sua amizade. Assim, Jesus assume nossa fragilidade, nossa humanidade, fazendo-se igual a nós. A aliança entre Deus e os homens não se limita a um povo nem possui um tempo determinado de duração: é ampla e eterna.
Deus fala conosco — como nos recorda a Dei Verbum —, e o Papa faz questão de diferenciar a palavra da tagarelice; ou seja, distinguir a mera comunicação de informações rasas e superficiais da verdadeira revelação de quem realmente somos. A Palavra não anuncia apenas uma lista de regras, mas uma Pessoa: o Homem. Quando Deus fala conosco, Ele se revela e nos chama a viver em amizade com Ele.
Daí a importância da oração, compreendida como uma relação de amor com Aquele que se fez homem para nos tornar seus amigos. O amigo que escuta e deseja ouvir aquilo que sufoca a nossa alma; o amigo que nos chama a rasgar não as vestes, mas o coração. Pela escuta da Palavra, permitimos que ela opere em nós algo novo, como uma semente lançada em terra boa.
O primeiro lugar onde encontramos Deus é na oração comunitária e litúrgica: Deus nos fala através de sua Igreja. Depois, na oração pessoal, no íntimo, onde não há máscaras e onde todo o ser se apresenta despido diante do Senhor que o chama para uma união definitiva.
O tempo de oração é indispensável para o cristão, assim como a meditação. Trata-se do cuidado com o nosso organismo sobrenatural, da mesma forma que cuidamos de nosso organismo natural. Para falar de Deus, é necessário falar com Deus.
“Se Jesus nos chama a ser amigos, procuremos não deixar este apelo sem resposta. Acolhamo-lo, cuidemos desta relação e descobriremos que a nossa salvação consiste precisamente na amizade com Deus.”
(Papa Leão XIV)
Felipe Mendes
Missionário da Missão Maria de Nazaré
Referências
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum. (1965). Petrópolis-RJ: Vozes, 1982.
GOMES, Dom Cirilo Folch. O Concílio em resumo: os 16 documentos do Vaticano II em forma abreviada e simplificada. 3. ed. Rio de Janeiro: Benedictus; Edições Lumen Christi, 2021.








