Segundo a Teologia do Corpo, o ser humano original passa por três grandes experiências: a solidão original (quando Adão vê-se sozinho diante todas as criaturas), a comunhão original (ao ver Eva, osso de seus ossos, carne de sua carne, e ver nela uma pessoa, ocorrendo assim uma verdadeira expressão de amor) e, por fim, a nudez original: ambos eram imaculados, estavam nus, mas não sentiam vergonha.
Entretanto, após a queda da desobediência, o pecado maculou os corações puros de Adão e Eva fazendo com que ambos percebam a própria nudez, mais do que dos seus corpos, mas de suas almas.
‘‘Na realidade, através da nudez, manifesta-se o homem destituído da participação no Dom, o homem alienado daquele Amor que tinha sido a fonte do dom original, fonte da plenitude do bem destinado à criatura.’’ (TdC, 27, 2).
Ambos olham para a própria nudez e, com medo de serem usados um pelo outro, cobrem-se com o sentimento de vergonha. Com o início da tríplice concupiscência, vem também o pudor, uma forma de autodefesa da nossa intimidade contra olhares malignos.
O Ser Humano atual, decaído pelo pecado e redimido por Cristo, chamado a ser santo, de modo que seu corpo seja glorificado no juízo final, é completamente diferente do Ser Humano original no seu estado de inocência. Portanto, é necessário reconhecer que há coisas que precisamos deixar reservadas para nós, não apenas nos aspectos de nosso corpo, mas também emocionais e afetivos.
Há situações boas em minha história, como, por exemplo, o hábito de partilhar. Porém, há também algumas que prefiro manter em minha intimidade, por se tratar de algo que é meu. Isto também vale para as situações ruins: há aquelas que partilho, como testemunho, e aquelas que ficarão apenas em meu coração.
Cuidar da nossa intimidade é cuidar do que é precioso para nós. Ensinar a uma criança sobre a importância de sua intimidade é um grande passo para uma boa formação para a afetividade e sexualidade, através do cuidado de seu próprio corpo e ensinando-a a enxerga-lo como parte de quem ela é. Nosso corpo não é um receptáculo de alma: ele é o que nós somos. Da mesma forma que um sentimento íntimo, que só você entende, deve estar guardado e só pode ser compartilhado com Deus e com quem você realmente viverá um amor livre, total, fiel e fecundo, o corpo também precisa deste cuidado.
A educação para o pudor começa pela vivência desta prática pelos próprios pais, partilhando a partir do exemplo. Da mesma forma que não adiantará cobrar que seu filho não seja grosseiro na rua se, em casa, ele ouve xingamentos e os reproduz sem ser corrigido. A partir deste primeiro ponto, parte-se para o respeito a intimidade da criança. Sim, ela tem esse direito.
Nos tempos atuais, infelizmente já não nos espanta observar perfis de Instagram de crianças monitorados pelos pais, que usam e submetem os filhos a uma exibição exacerbada, justamente num ambiente tão hostil quanto a internet. Perfis que transformam em reels toda e qualquer ação da criança, até mesmo as mais íntimas, como banho, situações constrangedoras, choros, birras.
Há situações que uma criança vivencia que não precisam ser partilhadas com terceiros. Sei que, às vezes, há a tentação de pais compartilharem detalhes da vida dos filhos (e não há nenhum problema em partilhar as coisas boas com quem confiamos e gostamos), mas é necessária a cautela. Imagina uma situação constrangedora nossa sendo partilhada por alguém que amamos para uma pessoa que sequer conhecemos. Se isso para nós é ruim, quem dirá aos pequenos?
Cada ser humano deve ser respeitado em sua intimidade, e cabe aos principais responsáveis pelas crianças e jovens cuidarem para que esta seja também preservada e respeitada. A educação no pudor, vivida à luz da Teologia do Corpo, não visa criar pessoas neuróticas, mas homens e mulheres que saibam o valor intrínseco de cada um. Só assim é possível viver o Amor.
Felipe Mendes – Missionário da Missão Maria de Nazaré







