Na primeira quarta-feira de 2026, o Papa Leão XIV deu início a um novo ciclo de catequeses voltado para a releitura dos documentos do Concílio Vaticano II, que completou 60 anos em 2025. O objetivo do Santo Padre é justamente trazer de volta os ensinamentos de um Magistério que permanece atual e apresentá-los a uma geração que não teve contato direto com o real propósito deste Concílio. Muitos ouviram falar do Concílio e das mais diversas — e, por vezes, errôneas — interpretações de sua finalidade, mas poucos são os que, de fato, leram seus documentos e refletiram sobre o seu verdadeiro conteúdo.
O Papa São João XXIII referia-se ao Concílio como a aurora de um dia de luz para a Igreja. Após uma longa e rica reflexão bíblica, teológica e litúrgica, o fruto do Concílio foi um caminho que nos chama a redescobrir nossa condição de filhos de Deus e a olhar o rosto de Deus como um Pai que nos ama incondicionalmente; a Igreja como luz de Cristo e luz das nações, que une Deus e o seu povo; a reforma litúrgica, que colocou o mistério da salvação no centro e trouxe o povo para uma participação mais ativa e consciente; e, por fim, a abertura da Igreja para o mundo, não para ser mundanizada, mas para ir ao encontro da humanidade que sofre em meio à cultura de morte, a grande chaga dos tempos modernos, e mostrar o rosto de Cristo como resposta às suas angústias. Como recorda o Papa Francisco, redescobrir o Concílio “é devolver a primazia a Deus, a uma Igreja que seja louca de amor pelo seu Senhor e por todos os homens, por Ele amados” (11/10/2022).
Ao concluir os trabalhos do Concílio Vaticano II, São Paulo VI envia a assembleia conciliar para proclamar ao povo de Deus o Evangelho, na consciência de que viveram um tempo de graça que une o passado, o presente e o futuro. O passado, pois o Concílio não veio para romper com a história, mas para dar continuidade, levando consigo a Tradição, os concílios anteriores, os ensinamentos e o testemunho dos santos. O presente, pois somos chamados a não viver presos aos tempos passados, mas no agora, sendo, neste tempo, testemunhas de um Deus que nos ama e indo ao encontro daqueles que perderam essa verdade. O futuro, pois aquilo que tanto desejamos encontra-se nos caminhos de Cristo, no apelo da humanidade por justiça, por paz e por uma vida em plenitude, que só Cristo e sua Igreja podem e querem oferecer.
Ao dar início a este novo ciclo de catequeses, o Papa Leão XIV apresenta uma grande necessidade para os nossos tempos: revisitar o real chamado da Igreja para o mundo atual, que se perdeu em meio a interpretações equivocadas do Concílio Vaticano II, tanto por aqueles que desejaram uma ruptura completa com o passado quanto por aqueles que enxergam neste tempo um grande desastre na Igreja. A Igreja possui sua história, sua Tradição e um rico Magistério de dois mil anos que continua até os dias de hoje e que exige novas formas de anunciar o Evangelho, tendo em vista os novos desafios que o mundo nos apresenta. Não se trata de renunciar às verdades da fé, mas de proclamá-las em alto e bom som a um mundo que delas tem sede, ainda que não o saiba.








