São João Paulo II ressalta também, em sua Teologia do Corpo, vários pontos importantes deste santo casamento que deve ser modelo para todo casal cristão. Entre estes pontos ele cita o termo ‘irmã’ do qual Tobias chama Sara na noite de núpcias, quando os dois se colocam em oração. Para o Papa este não é apenas um detalhe, mas um ponto indispensável de reflexão. Ele ensina que: “Quando lemos a descrição do casamento do jovem Tobias com Sara, encontramos que Tobias a chama de ‘irmã’. (…) Isso significa que entre os jovens também deve ser formada uma relação recíproca através do casamento similar àquela que une irmão e irmã. (…) Através do matrimônio homem e mulher se tornam irmão e irmã de um modo especial. O caráter fraternal parece estar enraizado no amor esponsal.” (TdC 114). Este termo também expressa a pureza do olhar que ambos tiveram um como o outro, pois se antes os homens que se casavam com Sara eram tomados por um olhar de cobiça e luxúria, o anjo ensina que o olhar que preserva a vida do matrimônio é um olhar fraterno, que reconhece que Deus é Pai dos dois e por isso ambos são irmãos: “O anjo respondeu-lhe: Ouve-me, e eu te mostrarei sob quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e se entregam à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento: sobre estes o demônio tem poder.” (Tb 6, 16-17).
Ainda sobre a oração de Tobias e Sara, São João Paulo II ensina que: “Na oração de Tobias e Sara a dimensão da liturgia própria ao sacramento é ressaltada ante o horizonte da ‘linguagem do corpo’. Tudo, de fato, ocorre durante a noite de núpcias do casal.” (TdC 114). É aqui que a reflexão do Papa assume uma dimensão ainda mais completa acerca da ‘linguagem do corpo’ do qual ele tanto já explicou anteriormente. O casamento de Sara e Tobias não só ilustra o que ele define como ‘linguagem do corpo’ (como já apresentou no livro do Cântico dos Cânticos), mas eleva esta linguagem a uma dimensão litúrgica, ou seja, do sacramento do matrimônio: “A ‘linguagem do corpo’ se torna a linguagem da liturgia, porque é com base e com fundamento nessa linguagem que o sinal sacramental do matrimônio é constituído. (…) É através da ‘linguagem do corpo’ relida na verdade – na verdade do amor – que o sinal sacramental do matrimônio é construído na linguagem da liturgia e no ritual litúrgico como um todo. (…) Na ótica do mesmo texto pode-se ver também o modo como a linguagem e o ritual da liturgia formam (devem formar!) a ‘linguagem do corpo’. (TdC 117)
A história de Tobias e Sara, mais precisamente o relato de sua união conjugal, expressam de modo extremamente significativo uma ‘linguagem do corpo’ que é elevada a dimensão do mistério litúrgico do matrimônio. A consumação daquele amor, que foi pautado na oração, na espera e no desejo de agradar a Deus acima de tudo, venceu o mal, que outrora conduzia à morte. Assim também, o Papa explica, que todo casal enfrenta esta mesma luta: “Os esposos, unidos enquanto marido e mulher, se encontram em uma situação na qual os poderes do bem e do mal lutam entre si.” (TdC 115). Deste modo, o matrimônio de Tobias e Sara se tornam uma luz para iluminar este sacramento de um modo geral, para que todo casal compreenda que só em Deus o casamento encontra forças para vencer o mal e a morte.







